Dra. Carolina Valente – Cirurgia Vascular e Endovascular em Teresópolis – RJ

O tratamento endovascular é uma forma moderna e menos invasiva de tratar doenças nas artérias e veias. Na maior parte das vezes, não é preciso fazer incisões, acessos ou cortes na pele, porque tudo é feito por dentro dos vasos sanguíneos, através de pequenas punções. 

Esses procedimentos são guiados por exames de imagem, como ultrassom, tomografia, ressonância magnética e, principalmente, um tipo especial de raio X chamado fluoroscopia. A maioria das vezes o paciente fica acordado, apenas com sedação leve e anestesia local.

A base da técnica endovascular é a angiografia, que consiste em inserir um cateter dentro do vaso sanguíneo para visualizar por onde o sangue está passando e tratar o problema diretamente no local. Tratamento com o mesmo princípio e popularmente conhecido é o cateterismo cardíaco. O processo é o mesmo porém, no caso de doenças cardíacas e infartos esse tratamento é feito diretamente nos vasos do coração. O cirurgião vascular é responsável por este tratamento nos demais vasos do organismo. 

1. Punção arterial com agulha em ângulo de 45 graus. 2. Inclinação da agulha para facilitar a entrada do fio-guia. 3. Introdução de fio-guia no vaso. 4. Simultaneamente, a agulha é retirada sobre o fio-guia, enquanto aplica-se pressão no local para evitar sangramento. 5. Retirada a agulha, é introduzido o cateter. 6. Enquanto introduz-se o cateter, o fio-guia deve permanecer imóvel. Quando o cateter está em posição adequada, o fio é retirado. 7. Sem o fio na luz do cateter. este está pronto para ser manipulado cuidadosamente dentro do vaso.

É a única opção?

No que diz respeito a diagnóstico, os métodos de imagem não invasivos, como a Ultrassom (US) Doppler, a angiotomografia computadorizada (ATC) e a angiorressonância magnética (ARM), têm conquistado cada vez mais espaço na avaliação diagnóstica das patologias vasculares e reduzido o número de angiografias com subtração digital diagnósticas. Certamente, estas mudanças apresentam um avanço da medicina moderna, com inúmeras vantagens para os pacientes. No entanto, mesmo com todo esse avanço dos exames de imagem, ainda existem situações em que a angiografia continua sendo essencial. Isso acontece porque ela permite uma visualização direta e detalhada do interior dos vasos sanguíneos, com alta precisão, além de possibilitar que o diagnóstico e o tratamento sejam feitos no mesmo momento, quando necessário. Em casos complexos, quando há dúvidas nos exames não invasivos ou quando é preciso avaliar exatamente como o sangue está circulando em áreas críticas, vasos de calibre reduzido ou em localização de difícil acesso, a angiografia permanece como o método mais confiável e definitivo. Por isso, seu papel segue decisivo em cenários onde a segurança, a clareza diagnóstica e a tomada rápida de decisão são fundamentais para o melhor cuidado ao paciente.

Nos últimos anos os procedimentos endovasculares tiveram grande crescimento, tanto no tocante ao refinamento dos materiais e das técnicas existentes, quanto no desenvolvimento de novos procedimentos e instrumentos.

E quais são estes procedimentos?

Atualmente são realizados dezenas de procedimentos endovasculares minimamente invasivos, como:

• Angiografia digital diagnóstica, como complemento à US Doppler, ATC ou ARM.

• Acessos venosos central ou periférico, translombar, trans-hepático.

• Manutenção e recuperação dos acessos venosos, através de angioplastia e trombólise mecânica ou farmacológica.

• Retirada de corpo estranho intravascular.

• Angioplastia percutânea por cateter-balão arterial/venosa.

• Angioplastia percutânea com stents (doença vascular arterial/venosa periférica: renal, carotídea, aorta torácica e abdominal entre outros).

• Tratamento percutâneo da oclusão arterial aguda e crônica.

• Tratamento endovascular do aneurisma e dissecção das aortas torácica e abdominal.

• Tratamento percutâneo intravascular da trombose venosa profunda aguda ou crônica, com recanalização venosa mecânica ou farmacológica.

• Implante e retirada de filtro de veia cava.

• Tratamento percutâneo da embolia pulmonar (trombólise percutânea mecânica/fibrinólise).

• Tratamento percutâneo de malformações e fístulas arteriovenosas congênitas/adquiridas.

• Embolizações pré-operatórias (esplenectomia, tumores renais, sarcomas, tumor glômico etc.).

• Tratamento percutâneo da congestão pélvica.

• Tratamento percutâneo da hemoptise e epistaxe.

• Embolização uterina (miomatose, sangramento pós-parto).

• Trauma vascular: diagnóstico e tratamento de pseudoaneurismas, fístulas arteriovenosas, sangramento ativo, dissecção.

Quais os cuidados necessários?

Apesar de a maioria dos procedimentos endovasculares ser relativamente rápida e pouco invasiva, eles requerem uma adequada avaliação do paciente antes de qualquer procedimento.

A avaliação do paciente consiste em se obter anamnese que forneça as informações básicas para qualquer procedimento intervencionista que incluem, mas não se restringem a: queixa principal, sinais e sintomas, evolução da doença atual, comorbidades (especialmente cardiovasculares, diabetes melito) e cirurgias prévias, medicamentos em uso, história de alergia (exposição prévia a contraste iodado) e disfunções hepáticas ou renais. O exame físico deve ser direcionado para a avaliação do sistema vascular e do possível local de acesso para o procedimento. Procurar identificar durante o exame físico se há alterações dos pulsos que necessitam de avaliação não invasiva prévia ao procedimento endovascular. Por exemplo, um amplo pulso da artéria poplítea pode sugerir um aneurisma, que pode estar associado inclusive a aneurismas em outras localizações.

Avaliar áreas com cicatrizes de procedimentos prévios ou a presença de infecção ativa (celulite, por exemplo). Deve-se checar se há evidências que indicam se há presença de doença vascular crônica, como alterações tróficas da pele, perda de pelos, rubor dependente, temperatura da pele.

Antes de qualquer tratamento endovascular, o cirurgião vascular avalia com atenção as condições de saúde do paciente para garantir segurança durante o procedimento. Dois pontos que exigem um cuidado especial são o histórico de alergia ao contraste iodado e a função dos rins.

Contraste iodado e os rins:

O contraste com iodo é muito usado em angiografias e em diversas intervenções endovasculares, porque permite enxergar os vasos sanguíneos com precisão. A maior parte das pessoas tolera bem essa substância, porém algumas podem apresentar reações alérgicas, que vão desde coceira e vermelhidão até quadros mais intensos. Quando o paciente já sabe dessa alergia, é fundamental comunicar ao médico. Nesses casos é feita uma preparação com medicamentos específicos antes do procedimento, reduzindo significativamente o risco de reação. Existem também alternativas de contrastes ou técnicas que podem ser utilizadas conforme cada situação clínica.

A função dos rins também merece atenção. Isso porque os rins são responsáveis por eliminar o contraste da corrente sanguínea. Se o paciente já tem doença renal, essa eliminação pode ser mais lenta, o que aumenta o risco de piora da função renal após o exame. Para evitar isso, são adotadas medidas protetoras, como hidratação adequada antes e depois do procedimento, uso da menor quantidade de contraste possível e, em casos selecionados, o uso de contrastes menos agressivos aos rins ou até outras tecnologias que não dependem de contraste iodado.

Essas adaptações não impedem o tratamento, apenas reforçam a importância de um acompanhamento cuidadoso e personalizado. A abordagem endovascular continua sendo uma excelente opção para muitas doenças vasculares, mesmo em pacientes com essas condições. O segredo está na boa avaliação prévia e no planejamento individual do procedimento.

E qual opção para quem não pode contraste?

Uma alternativa para os casos onde o uso do contraste é um impeditivo é o dióxido de carbono (CO₂).

O CO₂ é um gás natural do nosso organismo, por isso é bem tolerado pela maioria dos pacientes. Quando injetado nos vasos durante o procedimento, ele desloca o sangue temporariamente e cria imagens que permitem mapear a circulação, sem a necessidade do contraste iodado. Essa técnica reduz o risco de reações alérgicas e protege a função renal, sendo especialmente interessante para pacientes com doença renal crônica ou histórico de alergia ao iodo.

O método não se aplica a todos os casos, já que o gás se comporta de maneira diferente nos vasos das pernas e do abdome em comparação com a circulação cerebral ou cardíaca. O cirurgião vascular avalia cada situação individualmente para entender quando o CO₂ oferece qualidade de imagem adequada e segurança para o tratamento.

Quando bem indicado, o CO₂ amplia as opções terapêuticas, garantindo que o paciente receba o melhor tratamento possível com o menor risco. Isso mostra como a medicina vascular tem evoluído para oferecer soluções cada vez mais personalizadas e seguras.

O tratamento endovascular representa uma das maiores evoluções da medicina moderna. Ele combina tecnologia de ponta, precisão diagnóstica e mínima invasividade, oferecendo aos pacientes recuperação mais rápida, menos dor e menores riscos quando comparado às cirurgias abertas tradicionais.

Com o avanço constante dos materiais, equipamentos e técnicas, os procedimentos endovasculares tornaram-se cada vez mais seguros, eficazes e personalizados, podendo ser aplicados em diferentes doenças vasculares — desde obstruções arteriais e aneurismas até malformações e tromboses.

O papel do cirurgião vascular é fundamental nesse contexto. Ele é o especialista capacitado para avaliar cada caso, indicar o melhor tratamento e conduzir o procedimento de forma segura, sempre buscando o equilíbrio entre resultado clínico e bem-estar do paciente.

Seja para diagnóstico, tratamento ou acompanhamento, a abordagem endovascular consolida-se como um pilar da cirurgia vascular contemporânea — unindo ciência, tecnologia e cuidado humano.

BRITTO, Carlos José de. Cirurgia Vascular, Cirurgia Endovascular e Angiologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2014. Seção II, Capítulo 13 – Fundamentos e técnicas básicas.

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